Um dos eventos mais marcantes da resistência negra no país chega aos cinemas em 2 de outubro. O filme “Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, retrata a revolta de 1835 em Salvador (BA), quando africanos muçulmanos lideraram milhares de negros escravizados e libertos contra o sistema escravista.

A produção revisita não apenas a luta por liberdade, mas também a organização e coragem que mobilizaram comunidades inteiras em torno da resistência, transformando a memória da insurreição em narrativa cinematográfica.

A Revolta dos Malês: resistência negra na Bahia

No dia 24 de janeiro de 1835, trabalhadores africanos escravizados ocuparam Salvador (BA) enfrentando, durante mais de três horas, civis e soldados coloniais na revolta que ficou conhecida como a mais importante rebelião urbana de escravizados do Brasil.

Ainda hoje, 190 anos depois, a Revolta dos Malês é lembrada em estudos, livros, blocos de carnaval, filmes e exposições de arte.

Estima-se que 600 africanos tenham participado do movimento. Proporcionalmente, isso equivaleria a 12 mil pessoas considerando a população atual de Salvador. O historiador baiano João José dos Reis calculou que mais de 70 africanos morreram nos conflitos e cerca de 500, em estimativas conservadoras, foram punidos com penas de morte, prisão, açoites ou deportações.

“Embora durasse pouco tempo, foi o levante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas”, afirma o especialista no livro Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês (1835).

O historiador dos Reis estima que Salvador tinha, em 1835, 65,5 mil habitantes, sendo 42% escravos (27,5 mil) e 29,8% de negros ou pardos livres (19,5 mil). Os brancos representavam 28,8% da população da capital baiana (18,5mil).

O termo malê era como os africanos muçulmanos trazidos ao Brasil eram chamados, sendo esse o principal grupo que organizou o levante.

Chamada também de Grande Insurreição, o episódio é parte de diversas revoltas que ocorreram na Bahia entre 1807 e 1844, sendo a dos Malês a mais importante delas, segundo pesquisa do historiador e sociólogo Clóvis Moura.

Embora derrotado, o levante marcou a história brasileira: aumentou a repressão contra a população negra e, ao mesmo tempo, deixou como legado a luta coletiva pela liberdade, tornando-se símbolo de resistência no século XIX.

A trama do filme

Na narrativa, dois jovens muçulmanos são sequestrados na África logo após o casamento e trazidos ao Brasil como escravizados. Separados pelo destino, eles enfrentam os horrores da escravidão e, em meio à sobrevivência, tornam-se parte da revolta em Salvador.

O longa mostra como a fé, a cultura e a união de diferentes povos se tornaram forças indispensáveis para enfrentar o sistema escravista.

Revolta dos Malês é o maior levante de escravizados da história do Brasil. Foto: Divulgação

Elenco e produção

“Malês” reúne Antonio Pitanga, Rocco Pitanga, Camila Pitanga, Bukassa Kabengele, Rodrigo dos Santos e Samira Carvalho, entre outros. O roteiro é de Manuela Dias.

A produção é assinada por Obá Cacauê Produções, Tambellini Filmes, Globo Filmes e parceiros, reforçando a importância do cinema nacional na valorização da memória afro-brasileira.

Estreias e festivais

O filme teve première nacional no Festival do Rio 2024 e estreia mundial no Maranhão na Tela, recebendo destaque por unir arte e história em uma narrativa de resistência. Agora, chega ao circuito comercial em 2 de outubro de 2025, com lançamento em todo o Brasil.

Sinopse oficial

Dois jovens muçulmanos, arrancados de sua terra natal na África, chegam ao Brasil como escravizados. Separados, enfrentam os horrores do cativeiro e se envolvem na Revolta dos Malês, maior insurreição de escravizados da história brasileira. Em meio à luta, buscam se reencontrar e reafirmar suas identidades e a liberdade.