A fumaça das queimadas, já reconhecida como problema de saúde pública em diferentes regiões do planeta, pode se tornar ainda mais mortal nas próximas décadas. Dois estudos publicados na quarta-feira (17) na revista Nature mostram que o aquecimento global tende a ampliar a frequência e a intensidade dos incêndios florestais — e, com isso, elevar as mortes ligadas à inalação da fumaça.

Nos Estados Unidos, as projeções indicam cerca de 70 mil mortes adicionais por ano até 2050 se as emissões de gases de efeito estufa permanecerem elevadas. Globalmente, o número pode alcançar 1,4 milhão de mortes prematuras anuais até o fim do século.

O que os estudos avaliaram

Os pesquisadores construíram modelos estatísticos e de aprendizado de máquina com base em dados de emissões de fogo (2001–2021) e cruzaram essas séries com registros de mortalidade nos EUA (2006–2019). A partir daí, estimaram como a exposição ao material particulado fino (PM2.5) — partículas minúsculas presentes na fumaça — afetará a mortalidade futura.

O que há na fumaça: PM2.5, CO, COVs, NOx, ozônio e metais pesados

A fumaça das queimadas é um coquetel de poluentes que, ao serem inalados, podem causar doenças agudas e crônicas:

A OMS recomenda que a média anual de PM2.5 não ultrapasse 5 µg/m³ — patamar frequentemente excedido em episódios de fumaça intensa no Brasil.

Para o pneumologista Frederico Fernandes (SPPT), “a exposição prolongada ao PM2.5 provoca inflamação generalizada, podendo desencadear arritmias, infarto e derrame, além de agravar doenças respiratórias e elevar o risco de câncer e diabetes”.

Brasil têm o menor número de focos em 12 anos

Enquanto o quadro global é de alerta, o Brasil registrou de janeiro a 7 de agosto de 2025 o menor número de focos de calor para o período em 12 anos: cerca de 30 mil ocorrências, segundo o Programa Queimadas/Inpe. A última vez que o país teve volume inferior foi em 2013 (28 mil).

A queda mais expressiva ocorreu em biomas críticos:

Em 2024, o Inpe contabilizou 278.299 focos de incêndios florestais — alta de 46,5% frente a 2023. Para reverter o quadro, o Governo Federal reforçou medidas preventivas em 2025, com número recorde de brigadistas, mais equipamentos e queimas prescritas, articulando MMA, Ibama e ICMBio no contexto da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF).

“O ano passado foi fora da curva pelo El Niño. Em 2025, além de condições climáticas mais neutras, tivemos mobilização de governos locais e estaduais, investimentos em Corpos de Bombeiros e aumento de ações federais — isso traz resultados”, explica André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial (MMA).

Para a ministra Marina Silva (MMA), “o Brasil tem lutado para liderar pelo exemplo. É preciso quebrar a inércia: todo ano temos que nos superar”.

COP30: oportunidade e responsabilidade

A redução inédita de focos em 2025 fortalece a posição do Brasil às vésperas da COP30 (Belém, 2025), mas especialistas alertam: oscilação interanual e eventos extremos exigem continuidade de políticas, fiscalização, prevenção territorial e resposta rápida. A agenda combina controle de ignições, mosaicos de queima prescrita, proteção a populações vulneráveis e governança integrada nos biomas mais suscetíveis.