O uso da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e universidades do Paraná foi tema de uma audiência pública realizada nesta segunda-feira (25), no Plenarinho da Assembleia Legislativa. Professores, pesquisadores, estudantes e parlamentares debateram a ausência de regulamentação e os efeitos da tecnologia na educação. O encontro destacou tanto os riscos, como o assédio pedagógico e a alienação docente, quanto as possibilidades de inovação e acessibilidade que a IA pode trazer.
A deputada estadual Ana Júlia (PT), proponente e organizadora da audiência junto à deputada federal Carol Dartora (PT), destacou que a expansão da tecnologia sem diretrizes claras compromete a autonomia do professor.
“Vivemos na educação um processo de plataformização que retira a autonomia dos professores e parte do direito à educação dos estudantes — da dúvida, do questionamento, da interação com o professor”, afirmou Ana Júlia.
Dartora apresentou proposições em tramitação no Congresso Nacional, como a inclusão de conteúdos de cibersegurança e IA nos currículos, a formação continuada de docentes e o PL 2338/2023, que cria um marco regulatório para o uso ético da inteligência artificial. “Com a falta de regulamentação, temos um cenário de insegurança legislativa para definir o que é permitido ou não na educação”, alertou.
Críticas acadêmicas e sindicais
A professora Carolina Israel (UFPR) apresentou estudos que relacionam o uso da IA à diminuição da atividade cognitiva e neurológica dos estudantes. Ela também ressaltou a dificuldade de rastrear as camadas que compõem as respostas geradas pelas redes neurais artificiais.
A secretária educacional da APP-Sindicato, Vanda Bandeira Santana, classificou a inserção da IA na educação básica como “um processo de alienação”. Para ela, os conteúdos prontos fornecidos por plataformas digitais retiram a autoria e reduzem o professor a mero reprodutor.
No ensino superior, o sociólogo Geraldo Augusto Pinto (UTFPR) destacou o risco de trabalhos acadêmicos serem produzidos ou avaliados por softwares de IA, comprometendo a qualidade da pesquisa científica.
Vozes dos estudantes
Estudantes também se manifestaram. Lucas Schneider, vice-presidente da União Paranaense dos Estudantes, alertou para a desigualdade tecnológica entre municípios.
“Precisamos pensar nas escolas que não têm acesso à internet. Talvez lá a inteligência artificial ainda não tenha chegado. E quanto tempo vai levar para chegar?”, questionou.
Rodrigo Silvino, aluno do IFPR, relatou que usa IA em pesquisas e resumos, mas defendeu regulamentação para garantir segurança. Já Artur Zanella dos Santos, também do IFPR, criticou o uso indiscriminado da tecnologia:
“Vejo alunos abusando da IA para fazer tarefas rapidamente, mas muitas vezes com fontes questionáveis, o que prejudica o aprendizado.”
Benefícios e possibilidades
Apesar das críticas, houve espaço para reconhecer os benefícios. Giancarlo De França Aguiar, diretor-geral do IFPR Curitiba, afirmou que a IA pode otimizar processos administrativos e liberar tempo para o professor se dedicar ao ensino.
Já Antonio Eduardo Kloc, diretor da Agência de Inovação do IFPR, citou estudo em que a IA preditiva foi aplicada na análise de dados da Segurança Pública sobre agressões na Região Metropolitana de Curitiba.
Dartora acrescentou que a tecnologia pode ampliar a acessibilidade, automatizar tarefas burocráticas e adaptar conteúdos ao ritmo de cada estudante.