Em 2020, enquanto o mundo parava por causa da pandemia de Covid-19, Roxana Borda Mamani, estudante de Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar (DRUSA) na UNILA, retornava à sua comunidade natal, Alto Mishagua, na Amazônia peruana. A realidade era dura: poucas horas de energia elétrica fornecidas por geradores a diesel caros, poluentes e dependentes de transporte fluvial.
Com o isolamento e a dificuldade de acesso à tecnologia, concluir a graduação remotamente tornou-se quase impossível. Mas, em vez de se conformar, Roxana decidiu transformar o desafio em solução.
Inspirada pelo que havia aprendido no Observatório Latino-Americano da Geopolítica Energética e com o apoio da amiga Joyce Mendez, também ex-estudante da UNILA, nasceu o Aylluq Q’Anchaynin — “energia da comunidade” em quéchua.
O reencontro das duas aconteceu em 2021, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), na Escócia. Ali, decidiram que voltariam para Alto Mishagua levando mais do que boas intenções: levariam energia limpa e acessível.
Foram muitos “nãos” até encontrarem apoio na organização Student Energy, que ofereceu mentoria e capacitação por meio do programa Guided Projects. A equipe cresceu, incorporando outros estudantes do Observatório, e passou a unir conhecimentos de engenharia, relações internacionais, sustentabilidade e integração regional para um objetivo comum: eletrificar uma comunidade indígena isolada.
Aprendizado, desafios e parcerias
O caminho não foi simples. A barreira do idioma, a complexidade logística da Amazônia e a necessidade de georreferenciar a comunidade que nem aparecia no mapa, foram apenas alguns dos obstáculos.
Com a parceria da Light Up the World, organização canadense que atua no Peru, o grupo conseguiu dar início às instalações. Em 2023, o primeiro sistema solar foi implantado na escola comunitária, garantindo energia e internet via satélite 24 horas por dia.
A virada veio em 2023, quando o projeto venceu o edital internacional Youth for Climate, em Roma, recebendo US$ 20 mil para ampliar a ação. Com o financiamento, a equipe voltou a Alto Mishagua em julho de 2024 para instalar sistemas solares em todas as 40 casas da comunidade.
Cada família recebeu iluminação interna e externa, além de acesso à internet. Jovens locais também foram capacitados para manter os equipamentos, garantindo autonomia e continuidade.
Mais que energia: justiça climática
O Aylluq Q’Anchaynin não se limitou à instalação de painéis solares. Incorporou a cosmovisão indígena, priorizou a participação das mulheres e trabalhou com um olhar de justiça climática. “O que fizemos não foi apenas técnico. Foi transformar vidas e mostrar que o protagonismo juvenil pode mudar realidades”, afirma Yanderi Josefina Fernandez Hernandez, integrante da equipe.
Os estudantes da UNILA que tornaram possível o projeto são:
- Osman Cesar Granada – Engenheiro Químico (UNILA).
- Icoana Laís Martins – Mestra em Energia e Sustentabilidade (UNILA).
- Joyce Mendez – Engenheira de Energia e Biotecnologia (UNILA) e conselheira juvenil da ONU para o clima.
- Vitor Augusto Araújo Rissatti – Mestre e graduado em Relações Internacionais (UNILA).
- Yanderi Josefina Fernandez Hernandez – Relações Internacionais e Integração (UNILA).
- Roxana Borda Mamani – Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar (UNILA).

Osman Cesar Granada, com o ministro do Meio Ambiente e Segurança Energética da Itália (à direita) e o diretor do Programa de Energia Sustentável da ONU (à esquerda). Foto: Divulgação.