*Por Rafael Portillo – Opinião
Na ciência política, ao considerar os conceitos dos clássicos, definia-se a política como um ideal de ação coletiva dos cidadãos para impulsionar o bem comum de uma comunidade e a maneira real como se faz política em situações determinadas. Por exemplo, Platão, em seu livro A República, se posiciona em uma corrente mais idealista. No entanto, Aristóteles, em sua obra Política, mostra uma visão mais realista, analisando e refletindo sobre o Estado e as diversas formas de governo.
A Democracia busca legitimar a participação e a decisão política do povo. O desafio é que, atualmente, valoriza-se mais o que tem preço; ou seja, há uma confusão entre o mercado econômico e o mercado político. A corrupção é naturalizada, o que contribui para manter uma democracia de baixa qualidade, afastando os cidadãos da política.
Essa democracia de baixa qualidade se manifesta na nulidade ou na escassa influência e poder de decisão de um verdadeiro Estado Social de Direito em favor da cidadania. Essa baixa qualidade da democracia é aproveitada no Paraguai por um setor do Partido Colorado ANR, que é o cartismo, uma expressão autoritária que dirige o governo segundo seus interesses, deturpando a política e dissociando-se da moral e da ética.
Lutar pela democracia com ações.
Essa democracia, por mais baixa que seja, habilita a construção de espaços aproveitando aberturas. Se a política é a busca do bem comum, por que não assumir o compromisso com novas ideias? Tal é a formação de uma ferramenta política em uma região com pouca história democrática. Um Movimento Independente, chamado Consciência Democrática do Leste (CDE EU CREIO), nasce no seio de um grupo de jovens universitários da Universidade Nacional do Leste UNE em 2015. Confiantes em seus próprios processos de militância juvenil de confrontação ao velho sistema de governar, tanto na universidade, no município, quanto a nível nacional.
Esse movimento obtém uma cadeira na Junta Municipal de Cidade do Leste nas eleições municipais de 2015. A partir daí, buscou-se diferenciar-se do tradicional, ou seja, dessa prática prebendal e clientelista, principalmente do Partido Colorado. Esse modelo já apresentava graves patologias de decadência, podridão de um sistema insustentável.
Em 2019, graças à constante insistência da sociedade em buscar uma saída justa e razoável, conseguiu-se deslocar um clã familiar que administrou o município durante 20 anos, sem contar os anos de governo colorado na época ditatorial e posteriormente desde a abertura democrática.
É preciso entender que o partido hegemônico, quando perde uma eleição, seja nacional ou regional, não se retira da disputa pelo poder cabisbaixo, ou seja, desmoralizado. Pelo contrário, se sacode e ressuscita das cinzas, atacando diretamente os pontos fracos do adversário. Um exemplo claro foi o golpe parlamentar contra o presidente Fernando Lugo (2008 – 2012), onde, nas sombras, um grupo fomentou o golpe a um governo não colorado, legitimando um processo de impeachment.
O objetivo de truncar um processo diferente por qualquer via que não seja por eleições livres e transparentes é porque não tem nada a ver com o modo de governar da ANR. Nesse sentido, o modelo de Lugo foi uma abertura democrática baseada na construção do “Tape Guasu”. Conseguiu-se conjugar vários projetos de reformas econômicas urgentes, ampliação de programas sociais, entre outros.
Alguns projetos de grande envergadura tiveram início de debate, como a Reforma Agrária e a defesa da Soberania Nacional, em particular a defesa da soberania energética (Itaipu e Yacyretá). Não me deterei a citar todos os feitos, mas a mostrar as causas de retrocessos no país.
Em Cidade do Leste, o Movimento Consciência Democrática Esteña conseguiu derrubar o partido colorado nas eleições de 2019 e posteriormente em 2021. Com o lema EU CREIO, ou seja, confio na capacidade do povo, dos trabalhadores, dos comerciantes e das pessoas comuns que se movem dia a dia na cidade e ao seu redor.
Essa confiança depositada em um jovem líder não foi em vão; ele soube demonstrar diferença no primeiro ano e no segundo mandato. Assim como mencionei um modelo de governo não colorado, a administração de Miguel Prieto conseguiu grandes avanços, saneando o município de práticas prebendais e clientelistas. Por isso, chamam isso de modo EU CREIO de governar, ou seja, com grandes projetos de infraestrutura, serviços de qualidade e, claro, atendendo aos mais esquecidos, as periferias.
Muitas das políticas públicas que são obrigações do governo central foram encaradas pelo prefeito Prieto. Assim como na parte sanitária durante a pandemia de COVID-19, a municipalidade destinou recursos para a construção de um pavilhão de contingência, hoje transformado em UTI para crianças. A política de saúde pública havia abandonado os esteños à própria sorte. Por outro lado, na questão social, foi gerida uma quantidade significativa de alimentos para as famílias que estavam em quarentena.
Em geral, a população esteña confia na administração Prieto, não apenas por esses projetos, mas pela forma de governar. O que já foi feito satisfaz os cidadãos, mas o que se propõe fazer no futuro incomoda e causa intriga ao governo central e ao próprio partido colorado. Assim, por meio de uma intervenção, querem legitimar mais um golpe à democracia paraguaia.
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*Rafael Portillo é sociólogo formado pela Universidade da Integração Latino-Americana (Unila).
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