Na corrida global contra as mudanças climáticas, a substituição dos combustíveis fósseis por energias renováveis é central. Contudo, na 62ª Conferência dos Órgãos Subsidiários da ONU (SB62) — realizada de 16 a 26 de junho, em Bonn, na Alemanha, outro tema vem ganhando força: a agricultura regenerativa como pilar essencial para a mitigação dos impactos ambientais. O encontro, que prepara os diálogos rumo à COP30, em Belém (PA), reflete sobre como a produção de alimentos pode se alinhar à preservação ambiental e à resiliência climática.
O Brasil ocupa uma posição estratégica no cenário climático global. Por um lado, se destaca como líder na transição energética, graças à alta participação das renováveis em sua matriz elétrica. Por outro, enfrenta sérios desafios ligados ao uso insustentável do solo: desmatamento, queimadas, monoculturas, excesso de agrotóxicos e manejo inadequado.
Nesse contexto, práticas como a agricultura regenerativa surgem como soluções transformadoras, que conciliam produção de alimentos, conservação dos ecossistemas e contribuição efetiva para o enfrentamento da crise climática.
Itaipu apresenta soluções integradas no debate global
Na última sexta-feira (20), um painel reuniu especialistas de diversas partes do mundo para discutir soluções regenerativas. Participaram: Hunter Lovins – presidente da Natural Capitalism Solutions, Million Belay – coordenador da Aliança pela Soberania Alimentar da África, Lígia Leite Soares – chefe do escritório de Brasília da Itaipu Binacional e mediação de Merijn Dols, cofundador do Fórum da Economia do Futuro.
Representando Itaipu, Lígia apresentou os projetos desenvolvidos nos 434 municípios do Paraná e Mato Grosso do Sul, dentro do programa Itaipu Mais que Energia. A executiva destacou como a gestão integrada de água, solo, pessoas e ecossistemas é indissociável da geração hidroelétrica. “A produção de energia, a qualidade da água e a segurança alimentar estão profundamente conectadas”, afirmou.
As iniciativas de Itaipu dialogam diretamente com os eixos da Agenda de Ação do Brasil para a COP30, especialmente no campo da transformação dos sistemas agrícolas. “A escuta ativa e a valorização das soluções locais são fundamentais. A inovação, para nós, é uma ferramenta de justiça social e fortalecimento dos territórios”, reforçou Lígia. Destaques:
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Cozinhas Solidárias Sustentáveis: combate à pobreza energética com uso de biogás, substituindo o gás de cozinha, e fortalecimento do trabalho comunitário, principalmente de mulheres.
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Desenvolvimento Rural Sustentável: assistência técnica para mais de 7 mil famílias de agricultores familiares, promovendo práticas regenerativas.
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Inovações Tecnológicas: uso de inteligência artificial aplicada à gestão territorial e fortalecimento de redes entre produtores familiares e consumidores.
Lições globais: da Índia à África, a força da agroecologia
Million Belay trouxe a realidade africana, destacando o enfrentamento à narrativa de que a agricultura industrial é indispensável para a segurança alimentar. Apresentou a campanha “My Food is Africa”, que resgata saberes e práticas ancestrais, além de experiências de intercâmbio com agricultores familiares da Índia (Andhra Pradesh), onde mais de 800 mil produtores estão em transição para a agroecologia.
As lições são universais: fortalecer a base comunitária, cuidar da saúde do solo, gerenciar corretamente a água da chuva, aumentar a biodiversidade microbiana e apoiar políticas públicas para escalar as práticas sustentáveis. “Hoje, os negociadores africanos já inserem a agroecologia nas discussões do G77+China. A União Europeia também reconhece a agricultura sustentável como resposta climática”, celebrou Belay.
Encerrando o painel, Hunter Lovins reforçou que a agroecologia não apenas combate a crise climática, como também promove justiça climática e fortalece os pequenos produtores. “Esses agricultores não são vítimas, são os heróis do clima. Todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão conectados à agricultura. Sabemos o que fazer — e faremos”, concluiu.