O mundo perde o ator Francisco Cuoco, um dos nomes mais proeminentes da dramaturgia nacional, que faleceu aos 91 anos na manhã desta quinta-feira, 19 de junho de 2025. O ator, consagrado por interpretar galãs e protagonistas em novelas de grande repercussão, estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, devido a complicações de saúde relacionadas à idade.
Cuoco deixa três filhos – Tatiana, Rodrigo e Diogo – e netos. A informação de seu falecimento foi confirmada à revista Quem por Mauro Alencar, pesquisador e amigo pessoal do artista. O ator estava internado há aproximadamente 20 dias, e a causa da morte foi falência múltipla dos órgãos.
O velório de Francisco Cuoco será nesta sexta-feira, 20 de junho, das 7h às 15h, com acesso aberto ao público na Funeral Home, localizada no bairro Bela Vista, em São Paulo. O sepultamento ocorrerá no mesmo dia, às 16h, em cerimônia restrita a familiares e amigos.
Da infância humilde ao reconhecimento artístico
Nascido em São Paulo em 29 de novembro de 1933, Francisco Cuoco era filho de Leopoldo, um feirante italiano, e Antonieta, uma dona de casa. Cresceu em um ambiente humilde ao lado da irmã, Grácia. Na juventude, chegou a auxiliar o pai na feira durante o dia, enquanto dedicava as noites aos estudos, com a aspiração inicial de se tornar advogado.
A paixão pela arte manifestou-se ainda na infância, ao observar circos mambembes que se instalavam em um terreno baldio em frente à residência de sua família, no bairro do Brás. Fascinado pelos espetáculos, o jovem Francisco começou a realizar pequenas encenações, alimentando o sonho de seguir carreira artística.
Aos 20 anos, ao prestar o vestibular, optou por trocar o curso de Direito pela Escola de Arte Dramática de São Paulo. Quatro anos depois, Cuoco graduou-se e ingressou no renomado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1959, passou a integrar o Teatro dos Sete, um grupo notável que contava com nomes como Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres, Sérgio Britto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida.
Mantendo sua ligação com os palcos, Cuoco deu seus primeiros passos na televisão no programa “Grande Teatro Tupi”, que apresentava adaptações de peças teatrais para a TV. “Interpretamos peças completas. A TV ainda era ao vivo e, lógico, tínhamos que improvisar muito. Foi um aprendizado incrível”, relembrou o ator em entrevista ao Memória Globo.
Sua primeira aparição em novelas foi em “Marcados pelo Amor” (1964), na TV Record. Em seguida, destacou-se em “Redenção” (1966), da TV Excelsior, um grande sucesso da época. Em “Legião dos Esquecidos” (1968), da mesma emissora, atuou como par romântico da atriz Regina Duarte.
A estreia de Cuoco na TV Globo ocorreu em 1970, na novela “Assim na Terra Como no Céu“, de Dias Gomes, onde interpretou o Padre Vitor.
Um ídolo e mentor na carreira e na vida
Admirado por atores mais jovens, especialmente com sua ascensão na televisão, Cuoco sempre se preocupou em compartilhar sua técnica e experiência.
“É importante que o ator tenha uma percepção que eu chamo de inteligência cênica: o Francisco não faz determinadas coisas na vida real, mas seu personagem faz. Porque, às vezes, se você não tem experiência, faz uma coisa mecânica e sem alma. É importante que os personagens tenham vida própria… Eu prefiro que o personagem sufoque o Francisco””, afirmou ele ao Memória Globo, demonstrando sua profunda imersão nos personagens.
Sua trajetória foi significativamente marcada pela série de protagonistas que a novelista Janete Clair escreveu especialmente para ele, resultando em sucessivos êxitos. O ambicioso Cristiano Vilhena, de “Selva de Pedra” (1972), noivo de Simone Marques (Regina Duarte), foi o primeiro desses papéis icônicos.
Após interpretar o jornalista Alex em “O Semideus” (1973) e o aviador Mário Barroso em “Cuca Legal” (1975), trama de Marcos Rey com direção de Oswaldo Loureiro, Cuoco foi convidado para dar vida ao carismático taxista Carlão, em “Pecado Capital” (1975), de Janete Clair.
“O Carlão tinha essa generosidade, essa coisa de olhar para o semelhante e ver o semelhante, não era um estranho para ele, era um igual. Eu acho que ele tinha a mágica do personagem popular”, disse o ator ao Memória Globo.
Na novela, produzida às pressas para substituir a primeira versão de “Roque Santeiro“, censurada pela ditadura militar, ele disputava o amor de Lucinha (Betty Faria) com o empresário Salviano Lisboa (Lima Duarte). Anos depois, no remake de “Pecado Capital” (1998), Cuoco assumiu o papel de Salviano, demonstrando sua versatilidade.
O extenso currículo de Cuoco na TV inclui ainda trabalhos em “O Outro” (1983), “O Salvador da Pátria” (1989), “Passione” (2010), “Sol Nascente” (2016), “Segundo Sol” (2018), entre outras produções notáveis.
Entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, Cuoco dedicou-se ao cinema, participando de filmes como “Traição” (1998), de José Henrique Fonseca e Arthur Fontes; “Gêmeas” (1999), de Andrucha Waddington; “Um Anjo Trapalhão” (2000), de Alexande Boury e Marcelo Travesso; “A Partilha” (2001), de Daniel Filho; e “Cafundó” (2005), de Clóvis Bueno e Paulo Betti.
Em 2005, após mais de duas décadas dedicadas quase que exclusivamente à televisão e ao cinema, ele retornou ao teatro, o ambiente que marcou o início de sua carreira. Em “Três Homens Baixos“, dividiu o palco com Gracindo Jr. e Chico Tenreiro.
O último papel de Cuoco na TV foi em 2023, com uma participação na série “No Corre”, do Multishow.
A paixão pelo palco desde a infância no Brás
Nascido no bairro do Brás, em São Paulo, Francisco Cuoco guardava memórias afetivas do terreno baldio em frente ao sobrado onde morava com seus pais, Antonieta e Leopoldo, e a irmã, Grácia. Segundo o Memória Globo, o ator sempre se recordava do local: “Era um universo que me fascinava”, referindo-se aos picadeiros que surgiam ali esporadicamente.
E bastava o circo partir para Francisco atravessar a rua e transformar aquele quintal em seu próprio palco. “Eu encenava uns diálogos engraçados para os vizinhos, tudo imaginação de criança”, contava.
O dramaturgo Walcyr Carrasco lamentou o falecimento do ator:
“Nos deixou hoje um dos maiores atores da nossa televisão. Francisco Cuoco foi um ícone, um artista que inspirou gerações e levou emoção a milhões de lares. Fica a saudade e a eterna admiração. Meus sentimentos à família, aos amigos e aos admiradores.“