*Por Rafael Portillo – Opinião
O processo de democratização do município paraguaio de Ciudad del Este, Alto Paraná, iniciou-se em 2019, após uma longa batalha que pôs fim a quase duas décadas de exploração dos habitantes da cidade por parte de um clã familiar. Por décadas, o Partido Colorado, uma força hegemônica, administrou os recursos da cidade de forma deliberativa desde sua fundação em 1956 e, posteriormente, por um sistema de eleições a partir de 1993. No entanto, nesse período de aparente abertura à participação cidadã, a legitimidade do governo municipal foi questionada devido a um baixo percentual de aprovação. Como resultado, a corrupção se tornou um mal endêmico que afetou profundamente a cidade.
O descontentamento popular culminou em um longo processo de luta contra a corrupção, que resultou na derrota do Partido Colorado nas urnas. O cenário mudou radicalmente quando a administração dos recursos públicos passou a focar no desenvolvimento da cidade. Nesse sentido, o controle e a transparência se mostraram fundamentais para alcançar um investimento eficaz em um curto período. Isso foi comprovado por meio de projetos e programas concretos que aumentaram a confiança da cidadania, levando à aprovação da gestão do único município não governado pelo Partido Colorado.
Após uma segunda derrota do Partido Colorado, a era de reconstrução de Ciudad del Este se aprofundou. A figura de Miguel Prieto, um jovem com experiência em militância universitária, ganhou destaque ao construir uma organização sólida e ingressar na política com determinação e entusiasmo. Seu crescimento como Vereador Municipal o fortaleceu como uma liderança capaz de implementar as mudanças necessárias. Em 2019, Prieto demonstrou sua força eleitoral ao derrotar os dois partidos tradicionais e repetiu o triunfo nas eleições municipais de 2021 com ampla maioria, obtendo mais de 80 mil votos. Contudo, essa vitória aprofundou a crise do Partido Colorado em Ciudad del Este, especialmente dentro do movimento Honor Colorado, que busca destituir o prefeito a qualquer custo. Além disso, o governo nacional tem tentado desfinanciar investimentos cruciais na cidade, como a construção de um hospital geral urgentemente necessário. Soma-se a isso o controle sobre a entidade Binacional Itaipu, atualmente nas mãos do clã familiar que tanto prejuízo causou a Ciudad del Este.
A gestão ‘Yo Creo’ e seus impactos
A forma de governar de Miguel Prieto, que ele denomina ‘Yo Creo‘, reflete-se nas grandes conquistas alcançadas por meio de uma administração eficiente e investimento no desenvolvimento da cidade. Em termos de infraestrutura, os projetos mais visíveis incluem a pavimentação de bairros e o fornecimento de água potável, o que permitiu reduzir o déficit nessas áreas e melhorar a qualidade de vida da população. Além disso, foi adquirida uma usina de asfalto para aprimorar as principais avenidas e, consequentemente, melhorar a mobilidade urbana. A implementação de um sistema de transporte municipal 100% elétrico também demonstra o compromisso com o desenvolvimento sustentável da cidade.
Esse modo de governar, centrado na população e para a população, com participação ativa de todos na elaboração de políticas públicas, é visto como um “mau exemplo” pelo Partido Colorado. Atualmente, a Associação Nacional Republicana (ANR) é, segundo o texto, controlada por uma “máfia”, cujas cúpulas seriam geridas por um grupo de “criminosos, saqueadores e entreguistas” conhecidos da época stronista. Esses indivíduos, com vínculos com o crime organizado, ditam as políticas partidárias e permeiam as instituições do Estado. Financiados por dinheiro ilícito proveniente do tráfico, conseguem eleger deputados, senadores e funcionários de alto escalão com poder de decisão. Dessa forma, alcançam o controle do poder e iniciam manobras implacáveis. Sob o manto da legalidade e de uma suposta maioria circunstancial, agem com arbitrariedade, ameaçam e expulsam sem justificativa aparente.
Crise democrática e ameaças à autonomia municipal
A forma como a democracia está sendo violentada não tem precedentes nestes 35 anos de transição democrática. O recente episódio da expulsão da Senadora Kattya González (PEN) é visto como uma “manobra mafiosa”, pois, sem argumentos suficientes, a vontade popular foi desrespeitada. O respeito à institucionalidade inexiste; para eles, é uma lei morta quando seus interesses estão em jogo. Este caso acendeu o alerta, principalmente para aqueles que verdadeiramente fazem oposição, como é o caso de Miguel Prieto. Desde que Santiago Peña assumiu o cargo em 2023, seu governo, considerado um “governo de fantoche”, prioriza a política externa, assumindo uma agenda de “entreguismo” e, aparentemente, com o interesse de reverter a imagem de seu líder, Horacio Cartes (HC), significativamente envolvido em acusações de corrupção. Sancionado pelo Departamento de Estado dos EUA, essa situação impulsiona o governo colorado a buscar reverter a sanção financeira e política.
No entanto, a política interna gira em torno de sanções e ameaças aos principais atores políticos da ANR. Por não terem o controle total de algumas instituições de relevância econômica e, principalmente, de grande peso eleitoral, buscam formas de manipular o sistema. Um exemplo disso é o pedido de intervenção da municipalidade de Ciudad del Este pela Controladoria Geral da República. Esse processo de pedido, feito pelo Controlador Geral Camilo Benítez, é considerado juridicamente inconstitucional e se presta ao jogo político do cartismo. Travestindo-se de transparente, submete-se às decisões do poder, que há tempos vem ameaçando e que, desta vez, alcança o movimento perfeito. Como não conseguiram pela promotoria, que usavam como “porrete político”, encontraram um método mais eficiente para o Partido Colorado.
As cartas já estão na mesa, às portas de uma eleição municipal, e o que menos interessa ao partido hegemônico é a vontade popular. Seu interesse reside em como legalizar os abusos e não evidenciar seu retorno de forma violenta. Experiência eles têm de sobra em seus mais de 70 anos de hegemonia. Agora, do outro lado da tela, no campo de jogo, a cidadania está expectante e reagirá de acordo com o que a “máfia” decidir no curto prazo. Esperemos que não tentem entrar pela janela e permaneçam na ilegalidade, voltando ao antigo modo de governar da ANR, gerando caos e retrocesso.
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*Rafael Portillo é sociólogo formado pela Universidade da Integração Latino-Americana (Unila).
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