O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, faleceu nesta terça-feira aos 89 anos. Em abril de 2024, foi diagnosticado com câncer de esôfago, um fato que ele mesmo revelou em uma coletiva de imprensa na sede do Movimento de Participação Popular (MPP). Em dezembro do mesmo ano, passou por uma cirurgia para a colocação de um stent no esôfago. No mês de janeiro de 2025, Mujica anunciou que a doença havia se espalhado para o fígado e que não faria mais tratamentos. “Já terminou meu ciclo”, declarou, pedindo para ser deixado “tranquilo” e expressando o desejo de ser enterrado em sua chacra. Apesar do diagnóstico, ele continuou a participar de eventos públicos, incluindo uma cerimônia organizada pelo Partido Colorado em comemoração aos 40 anos da democracia, em 27 de março.
Uma trajetória política marcante
Mujica nasceu em 20 de maio de 1935 no bairro de Paso de la Arena, em Montevidéu. Ele perdeu o pai ainda na infância. Em uma entrevista ao Folha de São Paulo, Mujica comentou que foi registrado em 1935, mas que na verdade nasceu um ano antes. Em 2009, após ser eleito presidente, a diária destacou sua “admiração” por seu pai e avô materno, ambos alinhados ao herrerismo.
Foi secretário do legislador nacionalista Enrique Erro e acompanhou sua saída do Partido Nacional em 1962. Dois anos depois, juntou-se ao Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros (MLN-T), onde enfrentou operações, guerrilha, clandestinidade, tortura e prisão. Mujica foi um dos nove reféns tupamaros que permaneceram presos em diferentes quartéis durante a ditadura, de 1972 a 1985, junto a figuras como Raúl Sendic e Jorge Zabalza.
Em uma de suas últimas entrevistas, Mujica refletiu: “No MLN-T também fomos prisioneiros de uma época e de um tempo”. Ele ressaltou que “os seres humanos somos mais complicados” e que “não era tão simples” resolver problemas políticos. Também criticou atitudes conservadoras que se disfarçam de progressistas, afirmando: “Não se aprende da realidade se não se tem uma visão crítica”.
Após a anistia e a recuperação democrática em 1985, integrantes do MLN-T iniciaram a incorporação ao sistema político uruguaio. Em 1989, fundaram o MPP e se uniram ao Frente Amplo (FA). Mujica foi eleito deputado em 1994 e senador em 1999, destacando-se como um dos setores mais votados da coalizão de esquerda.
Ele reconheceu a complexidade da política uruguaia, afirmando: “Há uma esquerda com a qual não nos encaixamos, mas andamos porque nos precisamos”. Em 2009, foi o candidato único do FA, vencendo as eleições em fórmula com Danilo Astori, e sua figura se tornou conhecida mundialmente.
Legado e conquistas
Durante seu governo, Mujica teve destaque internacional, especialmente por seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que se tornou viral. Ele promoveu uma agenda de direitos, incluindo a regulação do mercado de cannabis, a despenalização do aborto e o casamento igualitário, atraindo atenção global para sua chacra no Rincón del Cerro.
Seu governo também foi marcado pela busca dos restos dos desaparecidos Julio Castro e Ricardo Blanco Valiente, encontrados em 2011 e 2012, respectivamente. Questionado sobre a falta de vontade do FA em investigar esses casos, Mujica disse: “Nós buscamos tudo o que pudemos”, reconhecendo que talvez mais poderia ter sido feito.
Sobre o suposto “pacto de silêncio” entre militares e o MLN, Mujica afirmou: “Nós não fizemos pacto com ninguém” e lembrou que tinha um conhecimento profundo da história militar, que surpreendia até os próprios militares.
Seu governo enfrentou críticas por iniciativas como o projeto de mineração Aratirí e o fechamento da companhia aérea Pluna, que resultaram na saída de alguns ministros. Após deixar a presidência, Mujica se tornou um mediador respeitado, participando de negociações de paz na Colômbia e viajando pelo mundo como orador.
Em uma de suas últimas entrevistas, ele disse que a força política do FA estava “em um trânsito” devido à perda de referentes históricos, ressaltando a necessidade de uma direção coletiva: “A única coisa permanente na vida é a mudança, e o FA precisa de mudanças também”.
Em um discurso em 14 de agosto de 2014, durante o Dia dos Mártires Estudantis, Mujica destacou a importância de cuidar da vida. “A única fortuna que vocês têm é o milagre de estar vivo; não a estraguem”, alertou, enfatizando que “não há triunfo fácil”. Ele pediu aos jovens que não se deixassem vencer pelo ódio e que sempre estivessem dispostos a ajudar os que estão em dificuldades.
Esse discurso ressoou com suas últimas palavras em uma coletiva de imprensa em 29 de abril, onde deixou uma mensagem de esperança: “A vida é bela, se gasta e vai. O cerne da questão para triunfar é recomeçar sempre que se cai”.