VALPARAÍSO / SANTIAGO, CHILE — Publicado entre 1893 e 1897, El Oprimido foi o primeiro periódico a se autodefinir como comunista anárquico na região chilena. Quase apagado da memória histórica por décadas, o jornal ocupa hoje um lugar enigmático na formação do anarquismo no Chile, especialmente por sua forte presença estrangeira, suas conexões internacionais e sua distância dos núcleos libertários que se consolidariam apenas no final do século XIX.

“Las ideas para esparcirse no respetan nada. Atraviesan el Atlántico (…) convierten a los hijos del pueblo (…) en hombres libres que luchan por emanciparse de la tutela burguesa.”
(El Grito del Pueblo, Santiago, 29 de noviembre de 1896)

El Oprimido foi editado inicialmente em Valparaíso e depois em Santiago, tornando-se um caso singular por não se encaixar na narrativa tradicional que localiza o surgimento do anarquismo chileno apenas entre 1898 e 1902, a partir de núcleos predominantemente crioulos. Diferente dessas experiências posteriores, o periódico contou com a atuação direta de militantes estrangeiros, sobretudo italianos, espanhóis, franceses e alemães, articulados em redes transnacionais de propaganda libertária.

Durante muito tempo, escrever sobre El Oprimido foi praticamente impossível. Nenhum exemplar estava disponível no Chile ou na América Latina. As únicas duas cópias conhecidas sobreviveram graças à coleção pessoal de Max Nettlau, preservada no International Instituut Voor Sociale Geschiedenis, em Amsterdã. Por essa razão, livros e artigos clássicos da historiografia chilena ignoraram ou apenas mencionaram indiretamente o periódico, sem acesso direto ao seu conteúdo.

O jornal se apresentava com o subtítulo “periódico comunista anárquico” e adotava como lema expressões como “Ni Dios, ni Patrones” e “La emancipación del obrero tiene que ser obra del obrero mismo”. Seu discurso era anticlerical, internacionalista, anticapitalista e antiautoritário, atacando o Estado, a burguesia, o nacionalismo patriótico e as forças armadas, além de defender o campesinato e denunciar a exploração do trabalho urbano.

A publicação mantinha ampla rede internacional de intercâmbio, recebendo e enviando material a jornais anarquistas da Argentina, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e Brasil, incluindo títulos como Le Revolté (Paris), El Perseguido (Buenos Aires), El Productor (Barcelona) e Gli Schiavi Bianchi (São Paulo). Esse alcance internacional contrasta com sua circulação interna limitada, concentrada em Valparaíso e Santiago, com poucos exemplares chegando a outras cidades, como La Serena.

Entre os personagens centrais ligados ao periódico está o italiano Washington Marzoratti, tipógrafo e propagandista libertário que havia atuado na Argentina e no Uruguai, inclusive ao lado de Errico Malatesta, antes de se estabelecer no Chile. Ao seu redor gravitaram militantes estrangeiros como Alfred Müller, Bernard Bouyre, Salomón, Prim e membros da família Strappa, todos envolvidos em redes de financiamento, impressão e difusão de ideias anarquistas.

Apesar de sua importância, El Oprimido teve vida curta e praticamente nenhuma continuidade direta com os periódicos libertários que surgiriam a partir de 1899, como El Rebelde. Seu desaparecimento abrupto levanta questões ainda abertas na historiografia: repressão estatal, dispersão dos militantes, dificuldades materiais e isolamento político ajudam a explicar por que essa experiência pioneira foi apagada da memória coletiva.

Ainda assim, como demonstra a análise de suas páginas sobreviventes, El Oprimido foi sementeira decisiva. Suas ideias atravessaram fronteiras, circularam em redes clandestinas e ajudaram a preparar o terreno para a posterior consolidação do anarquismo no Chile. Mais do que um episódio isolado, o periódico revela uma pré-história libertária marcada pela imigração, pela circulação internacional de ideias e pela persistência da luta antiautoritária.

Casca de banana absorve até 70% de pesticidas em testes de laboratório, diz pesquisa