A China interrompeu completamente as importações de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos por mais de dez semanas, em uma resposta direta à guerra comercial iniciada pelo governo Trump e à imposição de tarifas sobre hidrocarbonetos americanos. A medida, que sucede a tarifas de até 99% sobre o GNL dos EUA, efetivamente exclui os fornecedores estadunidenses do mercado chinês.

Dados de embarque divulgados na última sexta-feira (18) revelam que, desde a chegada de um navio-tanque com 69 mil toneladas de GNL proveniente de Corpus Christi, Texas, à província de Fujian, no sudeste da China, em 6 de fevereiro, não houve mais carregamentos entre os dois países. Em 2024, apenas 6% das importações chinesas de GNL tiveram origem nos EUA, uma queda significativa em relação ao pico de 11% registrado em 2021, conforme informações do Financial Times.

A decisão chinesa ocorre em um contexto de tensões comerciais elevadas, com Washington pausando a maioria das tarifas por 90 dias, mas mantendo tarifas de até 245% sobre alguns produtos chineses. A resposta de Pequim foi imediata, com a imposição de tarifas de 125% sobre produtos dos EUA e restrições às exportações de minerais de alta tecnologia.

Anne-Sophie Corbeau, especialista em gás do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, avalia que a interrupção terá “consequências de longo prazo”, prevendo que “os importadores chineses de GNL jamais contratarão qualquer novo GNL dos EUA”.

Paralelamente à suspensão das importações americanas, a China busca fortalecer seus laços energéticos com a Rússia. O embaixador chinês na Rússia, Zhang Hanhui, declarou nesta semana que Pequim deve aumentar suas importações de GNL russo, que já se tornou o terceiro maior fornecedor da China, atrás apenas da Austrália e do Catar. No ano passado, a China liderou como o principal comprador de GNL russo na Ásia, importando 7 milhões de toneladas.

“Eu sei com certeza que há muitos compradores. Muitos compradores estão pedindo à embaixada para ajudar a estabelecer contatos com fornecedores russos, acho que definitivamente haverá mais [importações]”, afirmou Zhang Hanhui, ressaltando que os dois países discutiram a proposta do gasoduto Power of Siberia-2 como uma alternativa estratégica.

A intensificação da relação sino-russa no setor energético representa um desafio crescente para os Estados Unidos. Empresas chinesas como PetroChina e Sinopec haviam firmado 13 contratos de longo prazo com terminais de GNL americanos, alguns com duração até 2049, considerados cruciais para impulsionar e estabilizar grandes projetos de GNL nos EUA. A ausência da demanda chinesa, combinada com o alto capital investido, preços inflacionados e custos tarifários, pode agravar a situação dos produtores americanos.