Após forte pressão internacional e uma carta aberta assinada por 360 profissionais de saúde israelenses condenando o ocorrido, as forças de ocupação israelenses admitiram a morte de 15 socorristas palestinos na Faixa de Gaza. No entanto, a admissão veio acompanhada de uma controversa alegação de que uma “investigação” interna concluiu que o morticínio “não feria seu código de ética”, uma justificativa veementemente rejeitada por organizações de direitos humanos e pelo Crescente Vermelho Palestino (PRC).
O presidente do PRC, Younis al-Khatib, contestou a versão israelense em declarações à TV Al-Araby, classificando-a como “contraditória”. Ele questionou o motivo pelo qual soldados israelenses teriam se apressado em esconder os corpos dos socorristas da maneira como fizeram, descrevendo a ação como “criminosa”.
Khatib também revelou que “os militares israelenses se comunicaram com os socorristas antes de assassiná-los”, e que evidências, incluindo um vídeo mostrando as luzes de emergência das ambulâncias, desmentem a alegação israelense de pouca visibilidade no local. Ele enfatizou a necessidade de uma “investigação independente e imparcial conduzida por um órgão da ONU” diante da gravidade dos fatos.
O PRC, que teve socorristas mortos no incidente, emitiu uma declaração denunciando o informe israelense como “cheio de mentiras” e “inválido e inaceitável”. A porta-voz do PRC, Nebal Farsach, afirmou que a tentativa de justificar as mortes como um “erro pessoal do comando de campo” é uma manobra para desviar a responsabilidade, enquanto a verdade seria “muito diferente”.
A inverossimilhança do informe israelense é ainda mais acentuada pela alegação de que seis dos socorristas encontrados em uma vala comum, juntamente com suas ambulâncias, seriam “terroristas do Hamas”, sem a apresentação de qualquer prova que sustente essa acusação.
Na admissão das mortes, o informe israelense descreve o ocorrido como “falhas profissionais” resultantes de uma “comunicação parcial e imprecisa” de oficiais do comando de campo aos seus superiores durante a entrada das tropas na região de Rafah. As medidas disciplinares anunciadas se limitaram à dispensa do comandante do Batalhão Golani e a uma advertência ao oficial da 14ª Brigada.
Um vídeo gravado por um dos socorristas momentos antes de morrer, obtido pelo Crescente Vermelho e divulgado pelo New York Times, mostra integrantes de uma das equipes de resgate sendo alvejados por fogo israelense que persistiu por vários minutos, conforme reportou a Al Jazeera.
Vala Comum Revela Atrocidade:
Somente após cinco dias do ocorrido, equipes da ONU e do Crescente Vermelho conseguiram acessar o local, onde se depararam com uma vala comum contendo os corpos dos 15 socorristas e suas ambulâncias soterradas.
A organização israelense “Quebrando o Silêncio” também questionou veementemente a investigação israelense, descrevendo-a como “crivada de contradições, frases vagas e detalhes claramente selecionados”. A organização criticou a falta de esforço para apurar a verdade, especialmente diante da existência de um vídeo que expõe a falsidade da narrativa israelense, e lamentou a contínua impunidade e a perda de vidas inocentes.
A tentativa de encobrimento do crime pareceu insuficiente até mesmo para figuras radicais do governo de Netanyahu. O ministro da “Segurança”, Itamar Ben-Gvir, classificou a decisão de demitir o comandante como um “erro grave” que deveria ser “revertido”, defendendo os militares envolvidos e minimizando suas ações como parte do “sacrifício de vidas em Gaza”.
O professor inglês Geoffrey Nice, especialista em Direitos Humanos, considerou o informe israelense “surpreendente”, levantando sérias dúvidas sobre a conduta militar israelense em Gaza. Ele argumentou que, em vez de esclarecer os fatos, o documento questiona a própria atuação militar.
Pressão de Profissionais de Saúde Israelenses:
A admissão das mortes ocorreu após 360 profissionais de saúde israelenses, incluindo médicos, enfermeiros e socorristas, assinarem uma carta aberta exigindo uma investigação urgente e responsabilização pelos assassinatos. O documento classificou o ataque a socorristas e missões de resgate como uma “flagrante violação da lei internacional” e um ato contra a “moralidade humana”.
A carta expressou choque diante da “grave ocorrência” e reafirmou o compromisso dos profissionais com a ética médica e a sacralidade da vida. Eles consideraram “inconcebível” que um evento tão severo permanecesse sem uma investigação completa, confiável e imparcial que levasse a conclusões e responsabilização.
Um editorial do jornal israelense Haaretz também criticou duramente a resposta de Israel ao massacre dos socorristas, afirmando que ela demonstra a “degeneração e brutalização” do país. O editorial questionou quando os israelenses confrontariam as atrocidades cometidas em seu nome e lamentou a impunidade contínua para as alegações de crimes de guerra desde o início do conflito em Gaza, onde mais de 50 mil pessoas já foram mortas e a ajuda humanitária é severamente restrita.