A pílula anticoncepcional Nextela, que será lançada no Brasil em abril, traz como inovação o uso do estetrol, um estrogênio quase idêntico ao natural. Essa fórmula promete ter um impacto menor no fígado e em fatores de coagulação, o que pode aumentar a segurança e diminuir os efeitos colaterais, incluindo o risco de eventos tromboembólicos, um efeito adverso raro, mas preocupante para as usuárias.
Composta por drospirenona, um progestagênio que previne a gravidez, e estetrol, a pílula já está disponível em mais de 40 países, incluindo Canadá, Estados Unidos e nações europeias. A farmacêutica brasileira Libbs adquiriu a tecnologia de produção e espera atender 41 mil pacientes no primeiro ano de vendas.
Maria Celeste Osório Wender, ginecologista e presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), destacou a importância dessa inovação durante o evento de lançamento do produto: “Desde 2010, não tínhamos novidades significativas nesse campo. A nova pílula traz vantagens, como uma menor retenção de líquidos, que é um desejo comum entre as usuárias de anticoncepcionais.”
Profissionais de saúde, como Rogério Felizi, ginecologista e coordenador do Centro Especializado em Endometriose do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, demonstraram entusiasmo com a nova opção. “Quem já usa esse medicamento na Europa relata que ele tem uma tolerabilidade muito boa”, comentou Felizi, acrescentando que mulheres que enfrentam náuseas ou retenção de líquidos com outros anticoncepcionais têm apresentado menos efeitos colaterais ao migrar para essa nova opção.
A Libbs informa que mais de 380 mil mulheres na Europa já utilizam a Nextela. Zsuzsanna Jármy Di Bella, coordenadora de Ginecologia do Setor de Planejamento Familiar da Escola Paulista de Medicina, ressaltou: “Essa formulação visa minimizar os efeitos colaterais de outros anticoncepcionais. Diminuir o risco de tromboembolismo é sempre positivo e demonstra a evolução dos métodos contraceptivos hormonais.”
A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) já estabeleceu o preço máximo que poderá ser cobrado pelas farmácias, variando entre R$ 109,91 e R$ 117,82, conforme a incidência de ICMS em cada estado.
O que é o estetrol?
Identificado pela primeira vez na década de 1960, o estetrol é um estrogênio natural produzido exclusivamente pelo fígado do feto humano. É importante ressaltar que o estetrol utilizado na pílula é sintetizado a partir de fontes vegetais e é praticamente idêntico ao natural. Maria Celeste explica que, durante a vida intrauterina, ele pode ter funções como proteção imunológica e neuroproteção. Para gestantes, a molécula parece proteger as mamas e promover a vasodilatação do útero, fundamental para garantir o suprimento adequado de oxigênio e nutrientes ao feto.
O papel do estetrol na pílula
As pílulas anticoncepcionais combinadas associam um progestagênio, responsável pelos efeitos contraceptivos, a um estrogênio, que ajuda a reduzir sangramentos irregulares. Algumas mulheres que não podem usar estrogênio devido a condições de saúde, como tabagismo ou hipertensão, costumam ter dificuldades com sangramentos irregulares ao usar apenas o progestagênio, o que pode afetar sua qualidade de vida e levar ao abandono do método.
Embora o estrogênio sintético ainda seja predominante, a bióloga Juliana Dinéia Perez Brandão, doutora em Ciências e coordenadora do time de relacionamento científico da Libbs, ressalta que o impacto do hormônio sintético no fígado pode causar efeitos adversos. “Cada vez que ele passa pelo órgão, gera metabólitos que o organismo não consegue eliminar, o que pode resultar em efeitos colaterais”, explica.
Embora as pílulas tenham se tornado mais seguras ao longo do tempo devido à redução das doses hormonais, Juliana acredita que o estetrol representa um avanço significativo. “É um estrogênio que tem um menor impacto no organismo”, resume.