Este editorial não se dedicará a adentrar nos meandros jurídicos que, por sinal e apesar do descrédito geral do sistema de justiça colombiano, felizmente contam com valiosas exceções, como a atuação da juíza do caso Sandra Liliana Heredia, que se manteve firme no cumprimento de seu dever, assim como a do Tribunal Superior de Bogotá, que negou o pedido de tutela de Álvaro Uribe contra a juíza, ato classificado pelo senador Iván Cepeda, vítima no caso, como “uma estratégia para dilatar o processo” e um “ato desleal”.
Já há uma vitória das vítimas do paramilitarismo, de Iván Cepeda e do povo colombiano que quer verdade e justiça. Ter Uribe sentado no banco dos réus, o senhor das trevas e da desgraça deste país, é o primeiro ato vitorioso de dignidade. Ao ver a exposição de Iván Cepeda como primeira testemunha, sua apresentação transmite tranquilidade; ele fala sem roteiro, responde às perguntas com precisão e sem exaltação, como só pode fazer uma pessoa inocente, íntegra e digna.
Em contraste com o “cucho” (apelido dado a Uribe) e seus advogados, que desde o início do julgamento recorreram a artimanhas, à dilatação e às “jogadinhas”, patrimônio do uribismo. Uribe, em particular, parece preocupado, sempre com o olhar e a cabeça enterrados em sua própria podridão, anotando e desenhando sua própria condena. Às vezes, solta um sorriso nervoso. Seus advogados, Jaime Granados e Jaime Lombana, são diligentes em interferir no processo com manobras legais; nota-se que estão preocupados e se mantêm na expectativa.
Quando os advogados do “cucho” ouviam os áudios de seus comparsas, dos falsos testemunhos, na gravação afirmam: “Já que tenho a linha direta com o velho, você me ordena, senhor. Precisamos de uma garantia, que deem um jeito nisso, precisamos de uma garantia, você faz o vídeo, sim, mas se houver garantias, cucho”. Os advogados não sabem onde colocar as mãos; Lombana ri, se espreguiça na cadeira. Granados tenta parecer surpreso, mas se entrega com seu olhar perdido em alguns momentos. Eles sabem que estão defendendo o indefensável.
Volta o representante da dignidade neste julgamento, Iván Cepeda, que ratifica e explica sua atuação, sempre ajustada à lei. Quando recebeu os WhatsApps e áudios de Juan Guillermo Monsalve Pineda, um ex-paramilitar preso e ex-aliado de Uribe em suas andanças paramilitares, explicou: “Limitei-me a entregar essas gravações diretamente à Corte Suprema”, como deve fazer um cidadão respeitoso do marco constitucional de um país.
O advogado Granados tentou interromper a audição de um segundo áudio de Monsalve, e o nervosismo de Uribe aumentou, seu rosto ficou vermelho, enquanto Lombana enterrava a cabeça em suas anotações.
Este não é um julgamento normal; é a primeira vez que um ex-presidente é levado a essas instâncias, mas não é um querido ex-presidente aposentado, não, é o acusado de ter responsabilidade em milhares de execuções extrajudiciais de pessoas, em sua maioria jovens, trabalhadores informais, seres inocentes, fatos conhecidos eufemisticamente como “falsos positivos”. É o ex-presidente responsável pelo ocorrido em La Escombrera, onde a Procuradoria encontrou 14 corpos, mas organizações de direitos humanos, mães e lideranças da Comuna 13 falam de mais de 500 desaparecidos, muitos dos quais podem estar enterrados lá. Tudo isso no governo do nefasto “cucho”, que está neste julgamento.
Seja qual for o resultado do processo, o ex-presidente Uribe, apelidado de “cucho“, já está condenado pela história, pelas vítimas, por líderes políticos e por defensores dos direitos humanos como Iván Cepeda, que representam a dignidade, a vida e a verdade.
Voz La Verdad del Pueblo
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