A violência sexual infantil no Brasil é descrita como um “gigante invisível” por entidades do “Movimento Violência Sexual Zero”. Dados alarmantes indicam que há cinco registros policiais de estupro de menores de 13 anos a cada hora, enquanto cerca de 90% dos casos permanecem não notificados.

De acordo com informações da organização Safernet, foram recebidas 197 denúncias diárias de abuso e exploração sexual on-line de crianças e adolescentes em 2023, um aumento de 77% em relação ao ano anterior. Além disso, mais de quatro bebês nascem a cada hora de mães com até 15 anos, sendo que pelo menos dois deles têm mães com menos de 14 anos, idade abaixo da qual a relação sexual é considerada estupro no Brasil.

Luciana Temer, diretora-presidente do Instituto Liberta, uma das entidades do movimento, ressalta que a violência sexual infantil gera impactos que vão além das vítimas diretas. Segundo ela, o Brasil perde aproximadamente US$ 3,5 bilhões anualmente em potencial econômico devido à gravidez precoce, conforme estudo do Banco Mundial.

“Os dados são assustadores, mas a sociedade ainda não se conecta ao tema. A violência sexual infantil é uma epidemia que trará consequências significativas, inclusive em relação à evasão escolar”, afirma Temer.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a taxa de ocorrência de violência sexual infantil cresceu 24,1% entre 2022 e 2023, passando de 2,1 para 2,6 casos a cada 100 mil habitantes.

Diante deste cenário, o movimento convoca empresas a se comprometerem a disseminar informações sobre a violência sexual infantil. “A campanha visa à prevenção e oferecerá orientações sobre como agir em casos de violência. Precisamos quebrar o silêncio sobre esse tema”, afirma Eva Cristina Dengler, superintendente de programas e relações empresariais da Childhood Brasil.

Todos os materiais produzidos pelo movimento são digitais e podem ser distribuídos sem custo pelas empresas. “As empresas que aderirem receberão o material pronto e devem divulgá-lo internamente. É uma ação simples, mas nosso objetivo é provocar a discussão sobre um assunto difícil”, explica Temer.

Ela observa que a violência sexual infantil é uma questão que deve ser entendida como parte de uma “cultura permissiva”. Assim como a violência contra a mulher, esses problemas têm raízes comuns, incluindo o machismo e a violência intrafamiliar.

“Nos anos 90, quando atuava como delegada de polícia de defesa da mulher, não havia uma legislação adequada. Hoje, a discussão sobre a violência contra a mulher é muito mais ampla, e as empresas estão engajadas. Precisamos que a violência sexual infantil também ganhe essa visibilidade”, conclui Temer.