Neste domingo (9), cerca de 11 milhões de equatorianos irão às urnas para eleger o presidente e os 151 parlamentares da Assembleia Nacional, em meio a uma onda de violência, apagões e dificuldades econômicas. O atual presidente, Daniel Noboa, enfrenta 15 concorrentes, com Luisa González, da Revolução Cidadã, destacando-se nas pesquisas.

As análises eleitorais mostram resultados divergentes, com algumas indicando a vitória de Noboa e outras favorecendo González no primeiro turno. Em outubro de 2023, Noboa, que se posiciona à direita, venceu González no segundo turno com 52% dos votos, após a dissolução do Parlamento pelo ex-presidente Guilherme Lasso.

Contexto Político e Econômico

Irene León, socióloga equatoriana, comenta que Noboa, um megaempresário e herdeiro da maior exportadora de bananas do país, mantém proximidade com governos dos EUA, Argentina e El Salvador. Para León, se reeleito, ele continuará a favorecer o mercado e o grande capital, seguindo uma linha econômica anarcocapitalista.

Por outro lado, Luisa González representa a continuidade do legado do ex-presidente Rafael Correa, que se encontra exilado na Bélgica. Embora Correa tenha sido condenado por corrupção, seu partido, a Revolução Cidadã, ainda possui uma significativa base de apoio. González propõe um papel mais ativo do Estado na economia, com foco na menor dependência do petróleo e auditoria da dívida externa.

Desde o golpe contra Rafael Correa, líder da Revolução Cidadã, o Equador foi governado por administrações de direita, como as de Lenín Moreno (2017-2021) e Guillermo Lasso (2021-2023). Essas gestões implementaram políticas de austeridade, privatizações e cortes em investimentos sociais, resultando no desmonte de serviços públicos e no aumento da desigualdade social.

A precarização do emprego, o sucateamento dos setores de educação e saúde e a falta de oportunidades para a juventude contribuíram para o crescimento do crime organizado. Entre 2018 e 2023, o número de homicídios no país triplicou, e a presença de facções ligadas ao narcotráfico aumentou de forma alarmante. Enquanto os setores empresariais se beneficiaram de isenções fiscais, a população viu seu poder de compra despencar.

O colapso da segurança pública é um reflexo direto dessas políticas. A falta de investimento social e a desestruturação econômica agravaram a crise, facilitando o recrutamento de jovens por facções criminosas. O modelo de Daniel Noboa não rompe com esse histórico, mas o intensifica, transformando o país em um estado policial.

Luisa González e a proposta de reconstrução

Em contraposição ao modelo neoliberal de Noboa, Luisa González representa a continuidade do projeto progressista iniciado por Rafael Correa. Seu governo (2007-2017) ficou marcado por um fortalecimento do papel do Estado na economia e pela ampliação de programas sociais.

González propõe um governo estruturado em três pilares: Gerar, Proteger e Impulsionar. O eixo “Gerar” busca recuperar a soberania energética do Equador por meio de investimentos em infraestrutura e energias renováveis, visando garantir acesso à eletricidade a preços justos, em resposta a crises energéticas recorrentes.

O plano “Proteger” aborda a segurança pública sem excessiva militarização. A proposta inclui a modernização das forças policiais, a revisão do sistema prisional e o combate à corrupção dentro das instituições de segurança. A estratégia se baseia em inteligência e prevenção, com investimentos em programas sociais para jovens em situação vulnerável, visando reduzir as causas da violência.

Por fim, o eixo “Impulsionar” foca no fortalecimento de setores estratégicos como saúde, educação e moradia. Durante o governo de Correa, o acesso à universidade foi garantido, e investimentos em infraestrutura reduziram significativamente a pobreza. González pretende retomar essas políticas, revertendo os cortes impostos pelos governos neoliberais.

Outra proposta central é a revisão da política fiscal, com a redução do IVA de 15% para 12% e o fim dos privilégios fiscais para grandes empresários, redistribuindo a carga tributária em benefício da classe trabalhadora. Além disso, busca restabelecer relações comerciais prejudicadas pelo isolamento diplomático de Noboa.

As eleições de novembro não são apenas uma disputa entre dois candidatos, mas um embate entre dois modelos de país. Enquanto Noboa aposta na repressão e na manutenção dos privilégios da elite econômica, Luisa González propõe um projeto de reconstrução social, centrado no fortalecimento do Estado e na justiça social.

Daniel Noboa a militarização e a retórica de combate ao crime

Desde sua posse em 2023, Daniel Noboa tem utilizado a segurança pública como seu principal ativo eleitoral. Inspirado em modelos de repressão, como o de Nayib Bukele em El Salvador, Noboa promove operações militares em larga escala e aumenta penas para crimes relacionados ao narcotráfico.

Em janeiro de 2024, Noboa declarou a existência de um “conflito armado interno”, ampliando os poderes das Forças Armadas na segurança pública. Essa abordagem resultou em um aumento significativo das prisões, com milhares de suspeitos detidos sem julgamento. Organizações de direitos humanos denunciam casos de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e torturas.

Até o momento, 27 desaparecimentos foram documentados pelo Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos (CDH), além do assassinato de um adolescente de 14 anos por militares em Guayaquil. Apesar das acusações, Noboa reforça sua retórica de combate ao crime como um divisor de águas para o país, afirmando: “O tempo do velho Equador acabou. Agora começa uma nova era”.

Noboa e Bukele compartilham também a estratégia de comunicação através das redes sociais, evitando a mídia tradicional e priorizando publicações controladas. Noboa promove símbolos como sua tatuagem de fênix para reforçar a ideia de um país “renascendo das cinzas”. Essa estratégia permitiu que ele evitasse debates públicos e críticas diretas, mantendo alta aprovação popular, apesar das denúncias de abusos e da falta de políticas sociais estruturais para enfrentar as causas da violência.