Uma pesquisa recente do IBGE destacou um paradoxo alarmante no Brasil: enquanto 92,9% dos brasileiros têm acesso à internet, apenas 66,1% da população conta com saneamento básico adequado. Esses dados revelam uma realidade preocupante sobre a desigualdade e a pobreza no país.
Christianne Dias, diretora-executiva da ABCON SINDCON, associação nacional das operadoras de saneamento, enfatiza a gravidade da situação: “Há pessoas pisando no esgoto, enquanto muitos têm dois celulares. Enquanto discutimos inteligência artificial, uma grande parte da população ainda não tem acesso ao básico, como água e esgoto tratados. O saneamento é o verdadeiro retrato da pobreza e da desigualdade no Brasil.”
Desigualdade Regional
A pesquisa do IBGE também aponta que as regiões Norte (27,9%) e Nordeste (46,3%) são as que apresentam os menores índices de acesso ao saneamento. O estado do Piauí destaca-se negativamente, com apenas 12% da população tendo acesso a água tratada e esgoto por rede coletora. Em resposta a essa crise, o governo do estado promoveu um leilão em outubro para conceder serviços de água e esgoto em 222 municípios, visando a universalização desses serviços.
A falta de saneamento básico no Brasil é responsável pela morte de 11 mil pessoas por ano, incluindo um grande número de óbitos entre idosos com 60 anos ou mais. Problemas de saúde, como disenteria e a doença de Chagas, poderiam ser evitados com a melhoria da cobertura e da qualidade dos serviços de saneamento.
Para que o Brasil consiga universalizar os serviços de esgotamento sanitário até 2035, o Atlas Esgotos: Despoluição de Bacias Hidrográficas, da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, aponta que são necessários investimentos de R$ 149,5 bilhões. Desses, R$ 101,9 bilhões devem ser aplicados na coleta de esgotos, enquanto R$ 47,6 bilhões precisam ser empregados no tratamento.
Caminhos para a universalização
Christianne Dias acredita que a colaboração entre o poder público e a iniciativa privada é essencial para enfrentar essa desigualdade no saneamento. Ela destaca a importância do marco legal do setor, que proporciona segurança jurídica para atrair investimentos. “É crucial que esses investimentos sejam acelerados. O marco legal estabelece um prazo para a universalização dos serviços: em nove anos, devemos garantir água e esgoto para todos. Embora estejamos avançando, ainda estamos longe dessa meta. Por enquanto, o saneamento permanece uma realidade distante para muitos, em contraste com outros avanços”, conclui.