Os recentes apagões que afetaram moradores de São Paulo e do Paraná reacenderam o debate sobre a privatização e a eficiência das empresas responsáveis por serviços essenciais no Brasil. Companhias como Enel e Copel foram alvo de críticas por sua incapacidade de atender às demandas emergenciais, levantando questões sobre a gestão privada de infraestrutura crítica.

A Copel, que recentemente se tornou uma corporação privada, foi amplamente criticada pela demora em restabelecer o fornecimento de eletricidade após fortes chuvas, deixando milhares de residências sem energia por dias. Moradores relataram que o suporte oferecido foi insuficiente e pouco transparente. Em São Paulo, um apagão na região metropolitana também levantou dúvidas sobre a capacidade da Enel de atender uma população em crescimento.

Esses eventos fazem parte de um contexto mais amplo que discute o papel das empresas estatais e o processo de privatização no Brasil. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que o Brasil possui 138 estatais federais, além de cerca de 400 vinculadas a estados e municípios, das quais 18 dependem diretamente de recursos governamentais para suas despesas.

Apesar das críticas à ineficiência estatal, a privatização enfrenta resistência. Paulo Falcão, advogado do Comitê dos Funcionários contra a Privatização da Celepar, alerta que a venda de empresas públicas pode levar ao abandono de regiões menos lucrativas, citando o caso do Tocantins, onde 70% da população ainda carece de acesso a serviços básicos de saneamento, mesmo após a entrada de empresas privadas no setor.

No Paraná, o debate sobre a privatização da Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná) também levanta preocupações. Criada para atender demandas do governo estadual, a Celepar desempenha um papel estratégico na gestão de dados e tecnologia, impactando áreas essenciais como saúde e educação. Especialistas alertam que a privatização pode comprometer a soberania digital do estado, colocando informações sensíveis sob risco de interesses privados.

As gestões de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e de Ratinho Junior, no Paraná, refletem uma agenda de privatizações em curso. Enquanto Tarcísio defende a venda de empresas como Sabesp e CPTM, Ratinho Junior tem um histórico de alienações, incluindo a Copel e concessões no setor de saneamento. Apesar da promessa de eficiência, críticos apontam uma desconexão entre o discurso e os resultados.

Recentemente, a Sabesp anunciou um aumento de 200% na conta de água para grandes consumidores, como hospitais e comércios, o que levanta questionamentos sobre a gestão após a privatização. O atual CEO da empresa justificou o aumento, afirmando que o desconto anterior se devia ao status estatal.

Além dos serviços essenciais, a privatização da educação estadual no Paraná também gera polêmica. Modelos inspirados na experiência chilena são criticados por ampliar desigualdades e falhar em resolver problemas estruturais. “Privatizar é entregar o futuro à lógica do lucro, deixando as populações mais vulneráveis à margem”, conclui Paulo Falcão.