No dia 13 de outubro de 1972, o avião que operava o Voo da Força Aérea Uruguaia 571 caiu na Cordilheira dos Andes, marcando o início do que ficou conhecido como a Tragédia dos Andes ou o Milagre dos Andes. A aeronave transportava 45 pessoas, incluindo uma equipe de rúgbi, e enfrentou uma tragédia que resultou na morte de vários passageiros, tanto no impacto quanto devido a ferimentos e ao frio intenso.

Dos 29 sobreviventes iniciais, oito perderam a vida após uma avalanche que atingiu o local nos dias seguintes ao acidente. O avião caiu em uma região remota, a mais de 3.600 metros de altitude, onde as condições eram extremas e não havia fontes de calor ou comida.

Diante da desoladora realidade, os sobreviventes tomaram uma decisão radical para garantir a sobrevivência: precisariam comer os mortos. “Jamais esquecerei aquela primeira incisão… em um dia mais frio e cinzento do que qualquer outro”, recordou o sobrevivente Roberto Canessa em seu livro de memórias “Tenía que Sobrevivir”, publicado em 2016. Ele descreveu o momento em que ele e outros três homens se prepararam para essa escolha extrema, utilizando lâminas de barbear e cacos de vidro.

O dia 29 de outubro

A situação piorou ainda mais em 29 de outubro, quando uma avalanche atingiu o abrigo improvisado dos sobreviventes, resultando na morte de mais oito pessoas. “Quase desisti quando a avalanche nos atingiu”, contou Canessa em uma entrevista à National Geographic em 2016. A determinação de um companheiro, que o encorajou a continuar pela equipe, reacendeu sua vontade de lutar pela sobrevivência.

Até dezembro, o número de sobreviventes havia diminuído para 16, e eles enfrentaram uma escolha crítica: esperar a morte ou buscar ajuda. Um pequeno grupo decidiu partir em uma expedição de resgate: Canessa, Nando Parrado e Antonio Vizintín. Prepararam-se por semanas e, em 12 de dezembro, iniciaram a jornada desafiadora pelas montanhas.

Após três dias, Vizintín retornou ao acampamento, permitindo que Canessa e Parrado continuassem com mais chances de sucesso. A dupla avistou um pastor chileno, Sergio Catalán Martínez, em 20 de dezembro, que trouxe ajuda no dia seguinte, levando as autoridades até os outros 14 sobreviventes.

A lembrança do canibalismo os acompanhou por décadas, e Canessa refletiu sobre as consequências irreversíveis dessa decisão: “Nunca mais fomos os mesmos”. Enquanto 16 jovens deixaram a montanha, os restos mortais daqueles que não sobreviveram permaneceram nos Andes, enterrados perto do local onde perderam a vida.

A história do voo 571, que poderia ter sido um mistério trágico, foi reescrita pelos sobreviventes, que se uniram na luta pela vida e deixaram uma marca indelével na memória coletiva.

Quando o resgate ocorreu, 72 dias após o acidente, o evento gerou intensa comoção, e a sobrevivência dos passageiros foi considerada um milagre. A Tragédia dos Andes não é apenas uma história de sobrevivência, mas também uma reflexão sobre a resiliência humana diante de adversidades extremas, perpetuando a memória dos que viveram essa experiência angustiante.

No entanto, a notícia do “milagre nos Andes” rapidamente se transformou em horror quando os sobreviventes revelaram que haviam consumido carne humana para sobreviver. Canessa defendeu suas ações, afirmando: “Você não pode se sentir culpado por fazer algo que não escolheu fazer”.