Brasília – Um desabafo que se transformou em clamor global. Daiara Tukano, artista, mestra em Direitos Humanos e militante do povo Tukano, tornou-se voz central na denúncia do cerco violento que sofrem os Guarani-Kaiowá no município de Antônio João (MS). Em entrevista, ela detalha como o Judiciário e o Legislativo têm articulado retrocessos que jogam populações originárias na miséria e na beira de estradas, enquanto o agronegócio avança sobre terras já homologadas.
Para Daiara, a luta indígena é o termômetro da democracia brasileira. Ela alerta que não há como falar em fim da violência sem abraçar a causa dos povos da terra. “Qualquer pessoa que levanta uma bandeira pedindo democracia precisa entender que, caso contrário, estará marchando sobre o nosso sangue”, afirma.
O golpe do judiciário e a vida sob lona
A situação dos Guarani-Kaiowá é o exemplo mais simbólico do conflito legal no Brasil. Em 2005, o território de 9 mil hectares foi homologado, mas pressões de proprietários de terra junto ao STF reduziram os indígenas a apenas 2 hectares. O resultado é um estado de miséria intencional: sem água potável, sem terra fértil e sob ataques constantes de pistoleiros e aviões de agrotóxico.
“Miséria é miséria. Isso significa ameaça física, psicológica e patrimonial o tempo inteiro”, denuncia Daiara. Ela relata que fazendeiros envenenam fontes de água e utilizam substâncias tóxicas para expulsar comunidades que resistem em barracos de lona, enfrentando geadas e a fome.
A bancada do “boi, bíblia e bala” e a PEC 215
No Congresso, a ofensiva contra os direitos indígenas é orquestrada pela chamada Bancada BBB. O alvo principal é a PEC 215, que pretende transferir do Executivo para o Legislativo o poder de demarcação de terras. Para Daiara, o Legislativo não possui autonomia nem isenção para essa tarefa, sendo financiado por grandes multinacionais e latifundiários interessados na exploração total do solo.
Além disso, a militante critica o chamado “Marco Temporal”, uma tese jurídica que ignora séculos de expulsões violentas ao exigir que os indígenas estivessem na posse da terra em 1988 para terem direito à demarcação. “Se alguém arromba sua porta e mata sua família, você corre. Isso é o êxodo pela sobrevivência, e agora querem usar nossa fuga como desculpa para nos negar o direito à terra”, pontua.
Visibilidade como arma de resistência
O genocídio, segundo Daiara, é generalizado e atinge etnias de norte a sul, dos Mundurukus aos Maxakali. Ela defende que a solução passa pela união dos movimentos sociais e pela visibilidade dos problemas internos do Brasil.
“As pessoas se comovem com conflitos no Oriente Médio, mas fecham os olhos para o que acontece aqui. Precisamos conhecer nossa história e identidade para nos orgulharmos de nossa raiz indígena”, conclui. Para ela, a terra não é mercadoria, mas espírito, cultura e patrimônio de toda a União que precisa ser preservado para que o Brasil não perca sua própria alma.