São Paulo – Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, completou recentemente sete décadas de vida com uma trajetória marcada pela interseção entre a fé e a política. Autor de mais de 60 livros, sua obra mais emblemática, Fidel e a religião, completa 30 anos como um marco que rompeu o isolamento entre o Estado cubano e as instituições religiosas. Em entrevista, Betto detalha sua recente visita a Havana e a percepção de Fidel Castro sobre os novos rumos da geopolítica global.
A amizade com Fidel, iniciada em 1980 na Nicarágua, permitiu que o frade dominicano atuasse como uma ponte diplomática. Foi a partir de diálogos provocados por Betto que Cuba abandonou o caráter ateu em sua Constituição para se tornar um Estado laico, permitindo o ingresso de cristãos no Partido Comunista e encerrando décadas de discriminação ideológica.
A mística revolucionária e a herança jesuíta
Betto descreve um Fidel Castro lúcido e atento à conjuntura internacional, mantendo o hábito de anotar cada detalhe das conversas que mantém com chefes de Estado. Sobre a espiritualidade do líder cubano, o religioso revela uma curiosidade: Fidel demonstra profundo interesse pela cosmologia e física, lendo sobre buracos negros e o Big Bang.
“Muitos me perguntam se ele é cristão ou ateu. Respondo que o considero agnóstico”, comenta o frei, ressaltando a coerência assombrosa do comandante ao longo de quase 60 anos de revolução.
Fé e socialismo: uma analogia necessária
Para Frei Betto, a resistência da Igreja Católica em aceitar o socialismo carece de fundamento bíblico. Ele traça paralelos entre a estrutura de pensamento de Jesus e Marx, destacando que ambos tinham o pobre e o proletariado como protagonistas da história.
“Jesus e Marx eram judeus e tributários da Torá. Toda a prática de Jesus foi de partilha dos bens da vida. Por isso, me custa entender como um padre pode ser antissocialista”, afirma. Para o escritor, a essência do Evangelho se manifesta na divisão dos frutos do trabalho humano, definindo o socialismo como a tradução política do conceito cristão de amor.
Os desafios da reaproximação com os Estados Unidos
Sobre a recente retomada das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos, o frei expressa um otimismo cauteloso. Embora a adesão popular ao socialismo seja sólida, o governo cubano toma providências para evitar que a abertura econômica desfigure o projeto social da ilha.
O objetivo é impedir o consumismo desenfreado sem abrir mão da austeridade e da segurança que hoje garantem baixos índices de criminalidade em Havana. Segundo Betto, o povo cubano valoriza suas conquistas e não deseja retroceder: “O cubano não quer que o futuro de Cuba seja o presente de Honduras”.
Tensões na América Latina
Ao analisar a situação da Venezuela, Frei Betto minimiza as previsões de ruptura institucional catastrófica. Para ele, a divisão ideológica dentro da Igreja venezuelana reflete tensões naturais de um país que busca emancipação das influências norte-americanas após décadas de governos elitistas. Ele cita o apoio constante de Fidel a Nicolás Maduro como um sinal de que o regime chavista permanece consolidado, apesar das pressões externas.
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