O ministro da Saúde palestino, Majed Abu Ramadan, denunciou que 29 crianças morreram em Gaza devido à fome nos últimos dias e alertou que milhares mais estão sob risco iminente de vida pela falta de alimentos, agravada pelo bloqueio imposto ao enclave.
A crise humanitária e o impacto na infância
A situação humanitária na Faixa de Gaza atingiu um patamar crítico, com denúncias alarmantes sobre o crescente número de vítimas da fome. Segundo Majed Abu Ramadan, ministro da Saúde palestino, 29 crianças morreram em decorrência da escassez de alimentos nos últimos dias, e o número de vidas em risco por desnutrição é preocupante. Ele adverte que milhares de crianças correm risco de vida devido à privação alimentar, resultado do bloqueio que limitou severamente a entrada de suprimentos no território.
A Unicef corrobora a gravidade do cenário, afirmando que a desnutrição é generalizada na Faixa de Gaza. Ramadan expressou preocupação de que a denúncia da ONU, que aponta 14.000 crianças na iminência de morte por desnutrição, possa inclusive estar “subestimada”.
Acesso à ajuda e desespero da população
A declaração do ministro palestino evidencia a urgência de uma resposta humanitária robusta, em meio à entrada restrita de alimentos no enclave, após semanas de bloqueio. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, descreveu a situação como “a hora mais cruel desse conflito cruel”, criticando a insuficiência da ajuda que tem chegado.
“As famílias estão passando fome e lhes é negado o básico, tudo com o mundo assistindo em tempo real”, denunciou Guterres, ressaltando a dimensão do sofrimento humano. Um pai, em entrevista à BBC, descreveu o cenário de desespero: “As pessoas começaram a desmaiar por falta de comida e fome. Não sabemos o que dar para alimentar nossos filhos. Não há lentilhas, arroz ou farinha disponíveis, nem qualquer outro tipo de alimento. Não há legumes disponíveis. Ninguém tem dinheiro para comprar um tomate. Ninguém consegue comprar um saco de farinha”. As imagens de crianças enfileiradas com vasilhames vazios nos postos de distribuição, na esperança de obter qualquer alimento, ilustram a severidade da crise.
Restrições à ajuda e perspectivas da ONU
Apenas na última segunda-feira, Israel permitiu a entrada de alguns caminhões com alimentos, uma medida que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu justificou como um esforço para evitar “imagens de fome em massa” e atender a “países amigos”. No entanto, ele fez questão de frisar que a quantidade era “mínima” e que os caminhões permanecem proibidos de acessar o norte de Gaza.
Em coletiva de imprensa em Nova Iorque, Guterres reiterou que a assistência autorizada a entrar em Gaza até o momento “equivale a uma colher de chá de ajuda quando uma enxurrada de assistência é necessária”. Ele acrescentou que, mesmo com a crescente indignação e pressão internacional, “cotas rígidas estão sendo impostas aos produtos que distribuímos, juntamente com procedimentos de atraso desnecessários”. Apesar dos desafios, a ONU afirma estar trabalhando “sem parar para levar toda a ajuda possível às pessoas necessitadas” e conseguiu distribuir minimamente “trigo, farinha, comida para bebês, suplementos nutricionais e remédios”.
Guterres pontuou que a ofensiva militar de Israel está se intensificando “com níveis atrozes de morte e destruição”, observando que quatro quintos do território de Gaza são uma “zona proibida” para os palestinos. Ele enfatizou que Israel possui obrigações claras sob o direito internacional e que “sem ajuda entrando em Gaza, muitos perecerão”. Dos quase 400 caminhões liberados em quatro dias para entrar em Gaza, “apenas os suprimentos de 115 caminhões puderam ser coletados e nada chegou ao norte sitiado”.
A agência da ONU relatou que, na noite anterior, 15 caminhões do Programa Mundial de Alimentos, transportando suprimentos, foram saqueados no sul de Gaza. “A fome, o desespero e a ansiedade sobre se mais ajuda alimentar está chegando, contribui para o aumento da insegurança”, afirmou a agência. Após semanas de paralisação, algumas padarias puderam retomar suas operações.
Apelos internacionais e propostas alternativas
Em reconhecimento à urgência da situação, 80 países assinaram uma declaração pela imediata entrada de comida em Gaza para deter a ameaça de fome em massa, alertando que a Faixa de Gaza enfrenta a pior crise humanitária desde outubro de 2023.
O secretário-geral Guterres reiterou que a ONU não participará de nenhum esquema alternativo de ajuda que não cumpra os princípios humanitários, contestando um plano de entrega de alimentos proposto pelo governo Netanyahu, que envolveria empresas norte-americanas e escolta militar israelense. Segundo Guterres, essa proposta estaria vinculada a um plano para deslocar a população Palestina para o extremo sul da Faixa de Gaza, facilitando a limpeza étnica.
A retórica do primeiro-ministro Netanyahu, em declarações que podem ser interpretadas como autoincriminação perante a Corte Internacional de Justiça de Haia, indica que a redução na intensidade do bloqueio de alimentos faz parte de uma estratégia mais ampla. Ele chegou a mencionar a ideia de uma “Riviera sobre Cadáveres”, sugerindo que, sob bombardeios e fome, os palestinos deverão se dirigir para uma “zona livre no sul de Gaza”, para que Israel possa, segundo sua visão, concretizar um “espaço vital” racialmente “puro”. Netanyahu teria expressado entusiasmo com a ideia de que “os moradores de Gaza que quiserem sair — poderão sair”, associando-se a planos da Casa Branca.